Entre os dias 12 e 18 de setembro de 2026, a cidade de Heidelberg, na Alemanha, receberá um dos encontros mais prestigiados da matemática e da computação mundial. Lá, três representantes do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) terão a oportunidade de compartilhar experiências com medalhistas Fields, laureados do Prêmio Abel e vencedores do Turing Award.
Ana Paula Schramm Steuernagel, bacharelanda em Matemática, Ronaldo Pereira Murakami Filho, doutorando em Matemática Aplicada, e Jaqueline Godoy Mesquita, docente do Departamento de Matemática Aplicada e atual presidente da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e da Unión Matemática de América Latina y el Caribe (UMALCA), foram selecionados para participar do 13º Heidelberg Laureate Fórum (HLF), um evento que reúne anualmente jovens pesquisadores de mais de 50 nações em convivência intensiva com os maiores expoentes da ciência.
Ciência, inspiração e networking
Criado em 2013, o Heidelberg Laureate Fórum é uma das iniciativas mais singulares no cenário científico internacional.
Idealizado pela fundação alemã Klaus Tschira Stiftung (KTS), o encontro surgiu com o propósito de aproximar jovens talentos de seus grandes referenciais acadêmicos. Mais do que um congresso científico tradicional, o HLF foi concebido como um espaço de diálogo intergeracional, no qual estudantes e pesquisadores em início de carreira podem discutir ciência, desafios profissionais, perspectivas de futuro e experiências de vida com alguns dos nomes mais influentes na matemática e na computação.
A proposta vai além da transmissão de conhecimento técnico. Ao longo de uma semana, os participantes compartilham palestras, mesas-redondas, atividades sociais e conversas informais que frequentemente se transformam em futuras colaborações científicas.
Para a professora Jaqueline Mesquita, que participará do evento pela terceira vez, esse formato é justamente o que torna o fórum tão especial. “O foco [do evento] não se limita ao conteúdo matemático. As discussões são amplas e envolvem temas como trajetórias acadêmicas, desenvolvimento de carreira, desafios da pesquisa, colaborações internacionais, entre muitos outros aspectos fundamentais para a formação de um pesquisador.”
Conheça os selecionados
Ana Paula Schramm Steuernagel
A paixão de Ana Paula pela matemática começou ainda durante o ensino médio. O interesse foi se consolidando gradualmente, à medida que ela entrava em contato com conceitos como limites, derivadas e integrais, temas que, mais tarde, reencontraria nas disciplinas de Cálculo e Análise durante a graduação.
Para ela, a matemática passou a representar muito mais do que fórmulas e procedimentos: “Parte da beleza da matemática se encontra na aparente complexidade que, em questão de minutos (ou horas), passa a ser trivial.”
Desde os anos finais da educação básica, Ana Paula via a UNICAMP como uma instituição capaz de impulsionar seu desenvolvimento acadêmico. Ao ingressar no IMECC, encontrou um ambiente que rapidamente a aproximou da pesquisa científica.
Ao longo da graduação, participou de projetos de iniciação científica, atividades de extensão e da organização de eventos acadêmicos, construindo uma formação que ultrapassava os limites da sala de aula.
Essa vivência ganhou dimensão internacional quando, após dois anos de curso, conquistou uma bolsa de intercâmbio para a Universidade de Potsdam, na Alemanha. "Essa experiência enriquecedora me proporcionou a possibilidade de aprender como a matemática é comunicada em diferentes países, uma característica que o HLF certamente aprecia devido à grande diversidade de jovens pesquisadores. A colaboração internacional entre pesquisadores é de extrema importância para o desenvolvimento de novas ideias. É a diversidade de jeitos de pensar e de entender o mundo que gera inovações.”
O processo seletivo do HLF é reconhecido pelo elevado grau de competitividade. Todos os anos, milhares de candidatos disputam cerca de 200 vagas destinadas a jovens pesquisadores de todo o mundo.
Além do histórico acadêmico, a seleção considera atividades científicas, cartas de recomendação e uma carta de motivação, na qual os candidatos devem demonstrar seu potencial de contribuição para a comunidade do fórum.
Apesar da forte concorrência, Ana Paula mantinha a esperança de ser selecionada. Quando a confirmação chegou por e-mail, a emoção foi imediata: a primeira pessoa com quem compartilhou a notícia foi sua amiga Letícia, que estava ao seu lado no momento em que recebeu a tão aguardada notificação.
Ao refletir sobre os fatores que contribuíram para sua aprovação, ela destaca o apoio de seus mentores. “Acredito que minhas cartas de recomendação comprovaram minha trajetória acadêmica e meu interesse pela pesquisa matemática. Sou imensamente grata à professora Jaqueline Mesquita, que me incentivou a me inscrever para o HLF, e ao professor Lino Grama, que acompanha meu desenvolvimento acadêmico desde o início.”
Agora, a estudante enxerga o encontro em Heidelberg como uma oportunidade única de crescimento acadêmico e profissional. “Estou muito animada para conhecer os demais jovens pesquisadores. Será uma oportunidade única de interagir com pessoas de diferentes países e construir relações profissionais duradouras que poderão gerar colaborações futuras. Além disso, acredito que serei imensamente inspirada pelos laureados.”
Ao olhar para sua própria trajetória, Ana Paula deixa uma mensagem que sintetiza o espírito do fórum: “O que é alcançável depende dos riscos que você toma. Falhas no meio do caminho são normais durante uma carreira acadêmica. Então, corra os riscos e se inscreva para eventos e atividades mesmo que você ache improvável ser selecionado.”
Ronaldo Pereira Murakami Filho
Antes de se enxergar como pesquisador, Ronaldo imaginava um futuro ligado ao ensino. No último ano do ensino médio, desenvolveu interesse pela educação matemática e chegou a considerar a possibilidade de se tornar professor universitário, o que o levou a ingressar no Bacharelado em Matemática.
Foi somente ao longo da graduação e, sobretudo, durante as primeiras experiências em pesquisa que Ronaldo descobriu que seu interesse estava se deslocando. Essa mudança se consolidou durante o mestrado em Matemática Pura, quando teve maior contato com o ambiente acadêmico e a produção científica. “Hoje, não tenho dúvidas de que a pesquisa é o eixo central que pretendo seguir na minha trajetória.”
Sua formação passou por diferentes instituições. Graduou-se pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realizou o mestrado na Universidade de Brasília (UnB) e atualmente desenvolve seu doutorado na UNICAMP, onde aprofunda estudos em matemática aplicada, especialmente na área de biomatemática. Segundo ele, cada etapa contribuiu de maneira distinta para sua carreira: “Transitar por diferentes instituições é extremamente enriquecedor, pois amplia perspectivas e permite contato com diversas linhas e abordagens. Por outro lado, também reconheço o valor de uma formação contínua em uma única instituição, já que cada mudança exige um processo de adaptação significativo.”
Ao falar sobre os desafios da vida acadêmica, Ronaldo ressalta que eles nem sempre estão relacionados à complexidade dos problemas científicos. Para ele, um dos obstáculos mais recorrentes ao longo da trajetória científica está na manutenção da motivação diante de atividades repetitivas ou de períodos de menor estímulo intelectual.
Ainda assim, a persistência diante desses momentos acabou sendo recompensada. Ao longo dos anos, Ronaldo acumulou reconhecimentos importantes, entre eles o Best Invited Talk Award, concedido durante um evento realizado no Banach Center, na Polônia. "O prêmio foi concedido em um evento diretamente ligado à minha área de pesquisa, o que contribuiu para consolidar minha imagem na comunidade científica e potencialmente abrir portas para futuras colaborações.”
Sobre sua seleção para o HLF, Ronaldo acredita que as cartas de recomendação tiveram papel fundamental: “Uma delas foi escrita pela minha orientadora, professora Jaqueline Godoy Mesquita, que já participou do evento e possui forte reconhecimento na área. A outra foi elaborada pelo professor Martin Bohner, que além de ser amplamente respeitado na comunidade matemática, também é colaborador em minhas pesquisas, assim como minha orientadora."
Agora, ele espera aproveitar a experiência em Heidelberg para ampliar sua rede de contatos e fortalecer futuras colaborações. A expectativa ganha ainda mais relevância diante da possibilidade de realizar um pós-doutorado na Alemanha por meio da Humboldt Research Fellowship. “A matemática, além de seu rigor técnico, também possui uma dimensão social importante, na qual o estabelecimento de conexões é fundamental”, destaca.
Jaqueline Godoy Mesquita
Docente no Departamento de Matemática Aplicada do IMECC, Jaqueline possui uma relação especial com o Heidelberg Laureate Fórum. Ao longo dos anos, o fórum tornou-se parte de sua própria trajetória científica, acompanhando diferentes momentos de sua carreira.
Sua primeira participação ocorreu em 2017, quando foi selecionada como jovem pesquisadora. Na ocasião, foi a única brasileira matemática mulher escolhida entre candidatos de todo o mundo. “Ali tive a oportunidade de estar em contato direto com alguns dos maiores nomes da matemática mundial, conversar com medalhistas Fields e conhecer de perto suas motivações, trajetórias e visões sobre a ciência”, relembra.
A experiência vivida em Heidelberg também continuou produzindo frutos muito depois do encerramento do evento. Ao participar do fórum, os selecionados passam a integrar uma rede internacional de ex-participantes, conhecida como comunidade alumni, que oferece oportunidades de formação, encontros, mentorias e novas conexões profissionais ao longo dos anos.
No caso da professora, essa rede abriu portas para experiências que dificilmente poderiam ser previstas durante sua primeira participação. Entre elas, a seleção para entrevistar, em 2020, a matemática norte-americana Karen Uhlenbeck, uma das figuras mais influentes da matemática contemporânea e a única mulher a receber o Prêmio Abel até hoje.
O vínculo construído naquela ocasião permaneceu ativo. Mais recentemente, Jaqueline recebeu um convite da própria Karen Uhlenbeck para uma visita acadêmica ao Instituto de Estudos Avançados de Princeton, onde discutirão possibilidades de cooperação científica envolvendo o Brasil e a América Latina.
Agora, em 2026, Jaqueline retorna ao HLF pela terceira vez. Depois de participar como jovem pesquisadora em 2017 e representar a comunidade matemática latino-americana em 2025, ela volta ao evento como integrante da rede alumni.
E a expectativa continua tão grande quanto na primeira participação. “Sempre que penso em retornar ao Heidelberg Laureate Fórum, fico extremamente feliz, tanto pela oportunidade de interagir com jovens participantes, que representam os futuros talentos da matemática, quanto pela possibilidade de conviver e dialogar com pesquisadores de altíssimo nível da área da matemática.”
Para a professora, mais do que revisitar um espaço que marcou sua trajetória científica, a nova participação simboliza a continuidade de um compromisso que se fortaleceu ao longo dos anos: aproximar cada vez mais pesquisadores da América Latina das oportunidades oferecidas pela comunidade científica internacional.
Tendo vivenciado em primeira mão o impacto que o fórum pode ter na formação e na projeção internacional de jovens cientistas, Jaqueline acredita que ainda há um grande potencial de participação da região a ser explorado. “Esse evento ainda é pouco divulgado no Brasil e, de forma mais ampla, na América Latina. É fundamental que estudantes da América Latina e do Caribe conheçam essa oportunidade e se sintam encorajados a se candidatar.”