No dia 7 de outubro, a UNICAMP divulgou que 106 de seus pesquisadores estão entre os cientistas mais influentes do mundo, segundo o ranking internacional elaborado pela editora científica Elsevier em parceria com a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.
O levantamento, baseado em dados da plataforma Scopus, utiliza indicadores padronizados de citações e impacto científico para medir a relevância da produção acadêmica em diferentes áreas do conhecimento.
Entre os nomes que colocam a Universidade em destaque estão seis docentes e pesquisadores do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC): Alessio Fiscella, Djairo Guedes de Figueiredo, Douglas Duarte Novaes, Edmundo Capelas de Oliveira, Hyun Mo Yang e José Mário Martínez.
A área de Comunicação do IMECC conversou com três desses docentes para conhecer suas trajetórias acadêmicas, suas linhas de pesquisa e o que esse reconhecimento representa em suas carreiras.
Matemática sequencial
Natural de Perugia, na Itália, Alessio Fiscella é graduado (2008) e mestre (2010) pela Università degli Studi di Perugia, onde iniciou seus estudos sobre equações diferenciais parciais (EDPs) durante o mestrado, sob orientação do professor Enzo Vitillaro, com foco em problemas de evolução.
Durante o doutorado na Università di Milano, sob a supervisão dos professores Enrico Valdinoci e Raffaella Servadei, aprofundou-se no estudo das EDPs elípticas não-locais e no uso de técnicas variacionais e topológicas aplicadas a espaços de Sobolev fracionários.
Em 2014, Fiscella chegou à UNICAMP por meio de uma bolsa de pós-doutorado da Capes, iniciando uma relação duradoura com o IMECC. Em 2016, ingressou no Instituto como Professor Doutor do Departamento de Matemática, cargo que ocupou até 2021, quando passou a atuar como professor assistente na Università di Milano-Bicocca, na Itália. Em meados de 2024, retornou ao IMECC, agora na posição de Professor Associado, atraído pelo ambiente de pesquisa acolhedor e colaborativo do Instituto.
Ao saber que figurava novamente na lista dos cientistas mais influentes do mundo, o professor conta que a descoberta veio de forma inesperada: “Recebi a notícia pela postagem de outro colega nas redes sociais. Fiquei bem surpreso, pois este resultado confirma, e até melhora, o do ano passado.”
Para Fiscella, o reconhecimento é consequência de um esforço conjunto e de uma trajetória marcada pela colaboração internacional. “Este resultado se pode interpretar como a combinação de vários fatores, mas não seria possível sem a colaboração com outros colegas. A troca de informações joga um papel fundamental na pesquisa matemática”, explica.
O professor ressalta ainda que o impacto da pesquisa se mede não apenas por números, mas pela capacidade de inspirar novas descobertas. “Na minha visão, uma pesquisa pode ser considerada influente quando inspira os trabalhos de outros colegas. A matemática é uma disciplina ‘sequencial’, em que as ideias e ferramentas que desenvolvemos podem ser usadas depois por outros para resolver problemas diferentes. É muito gratificante saber que as nossas técnicas foram úteis para nossos colegas.”
Entre seus trabalhos mais marcantes, Fiscella destaca o artigo publicado na revista “Nonlinear Analysis” em 2014, em coautoria com Valdinoci, que introduziu uma nova abordagem para os problemas de Kirchhoff dirigidos pelo operador Laplaciano fracionário. O estudo abriu caminho para uma série de extensões teóricas e inspirou outros pesquisadores a aplicarem a técnica em contextos variados.
Atualmente, o docente se dedica ao estudo de problemas variacionais envolvendo não linearidades de tipo crítico, considerando também operadores com crescimento não-standard, como o p(x)-Laplaciano e o operador de fase dupla. “Estes tipos de operadores e os funcionais associados estão capturando cada vez mais atenção, tanto por puro interesse matemático quanto por aplicações em modelos físicos”, destaca Fiscella.
Entre ciclos, toros e caos
Graduado (2011), mestre (2012) e doutor (2015) pela UNICAMP, Douglas Duarte Novaes é um exemplo de trajetória acadêmica que se desenvolveu integralmente dentro da instituição. Ingressou no curso de Licenciatura em Matemática em 2006 e, desde então, trilhou um percurso contínuo de aprofundamento científico que o levou, em 2016, a tornar-se professor do Departamento de Matemática do IMECC.
A notícia de estar entre os cientistas mais influentes do mundo foi recebida de forma muito positiva. “Aparecer nessa lista é, sem dúvida, um reconhecimento importante do trabalho que venho desenvolvendo ao longo desses nove anos como professor e pesquisador da UNICAMP. Saber que o que fazemos tem gerado impacto e visibilidade é gratificante, mas, acima de tudo, é um incentivo para continuar contribuindo com a pesquisa e a formação científica”, afirma.
Novaes pondera, contudo, que as métricas não capturam a totalidade da atividade científica. “Os rankings de universidades e pesquisadores refletem apenas certos aspectos da atividade acadêmica. Tentar mensurar o impacto e a influência da pesquisa em Matemática por meio de indicadores, quaisquer que sejam, nem sempre reflete o verdadeiro alcance do trabalho desenvolvido.”
Uma pesquisa influente “vai além de responder a questões específicas ou resolver problemas: ela deve ser capaz de propor novos problemas e fomentar novas linhas de investigação”, reflete o professor. “O pesquisador influente, na minha visão, é, portanto, aquele que possui a capacidade de formular e formalizar problemas que mobilizam a comunidade científica. Dois exemplos notáveis no IMECC são os professores eméritos Marco Antônio Teixeira, que integrou a lista em 2023, e Djairo Guedes de Figueiredo, presente na lista desde 2020. Ambos ajudaram a pavimentar a pesquisa em Matemática no Brasil e exercem grande influência internacional, tanto pelas respostas que ofereceram quanto pelas perguntas que souberam formular.”
Parte da pesquisa que Novaes vem conduzindo de forma consistente ao longo dos últimos anos concentra-se no desenvolvimento de ferramentas no âmbito da Teoria Qualitativa dos Sistemas Dinâmicos, voltadas ao estudo do comportamento periódico e quase-periódico, bem como à detecção de variedades compactas invariantes e de suas propriedades dinâmicas.
Entre seus projetos mais expressivos, destacam-se três linhas de investigação:
🔹A relação entre ciclos limites em campos vetoriais definidos em um cilindro e a presença de equilíbrios nos chamados sistemas médios correspondentes, tema que o levou a desenvolver novas correspondências matemáticas aplicáveis a objetos invariantes de dimensão superior;
🔹O estudo do comportamento periódico em campos vetoriais planares descontínuos lineares por partes, onde, em colaboração com pesquisadores da Universidad de Sevilla, obteve em 2023 uma resposta positiva para o clássico 16º Problema de Hilbert, estabelecendo uma cota superior para o número de ciclos limites possíveis que esses campos podem admitir;
🔹O desenvolvimento do conceito de “conexão de Shilnikov deslizante”, introduzido durante o doutorado, que abriu novas perspectivas para o estudo do caos determinístico em sistemas descontínuos com modos de deslize.
Atualmente, suas pesquisas concentram-se em bifurcações de toros atratores normalmente hiperbólicos, comportamento periódico e quase-periódico em sistemas diferenciais suaves e lineares por partes, conexões homoclínicas em sistemas descontínuos e métodos topológicos aplicados a sistemas diferenciais de baixa regularidade.
O legado de uma vida dedicada à ciência
Com uma trajetória que se confunde com a própria história do IMECC, Edmundo Capelas de Oliveira formou-se em Física pela UNICAMP (1977), onde também concluiu o mestrado (1979) e o doutorado (1982).
Ao longo dos anos, exerceu funções de coordenação e gestão acadêmica, foi diretor associado do IMECC (2002-2004 e 2006-2010), coordenou o vestibular da UNICAMP e recebeu o Prêmio de Reconhecimento Docente pela Dedicação ao Ensino de Graduação (2012).
Ao receber a notícia de que está entre os cientistas mais influentes do mundo, Capelas confessa ter se surpreendido: “Tomei conhecimento deste ranking através de uma mensagem que recebi da minha endocrinologista. Fiquei feliz e emocionado, pois há quatro anos estou aposentado e vejo que os temas desenvolvidos com meus estudantes de mestrado e doutorado continuam a gerar bons frutos.”
Apesar da posição de destaque, o professor mantém a convicção de que a ciência decorre de um esforço coletivo. “Nunca fui um aficionado por índices, pois sempre trabalhei com o que quis [ensino e pesquisa] e tive liberdade para tal, o que julgo preponderante, caso contrário não teria sido possível chegar ao topo da carreira. Em resumo, esses índices, bem ou mal, devem refletir alguma coisa. Uma pesquisa ‘influente’ no meu modo de ver é: estar no lugar certo, com pessoas certas e acertar. Com isso os bons frutos são consequência”, afirma.
Autor de diversos livros e artigos publicados em editoras e periódicos nacionais e internacionais, o professor se notabilizou nas áreas de equações diferenciais parciais, funções especiais e cálculo fracionário, campo em que se tornou referência. Entre seus trabalhos mais significativos estão uma pesquisa sobre equações diferenciais aplicadas à medicina, desenvolvida em parceria com um ex-orientando, e um livro publicado pela Springer sobre cálculo fracionário, hoje em segunda edição e utilizado por pesquisadores de diferentes países.
Mesmo após sua aposentadoria, em 2021, Capelas segue tendo sua produção amplamente citada, o que evidencia a influência duradoura de seu trabalho. O professor faz questão de reconhecer o papel de todos que cruzaram seu caminho para essa conquista: “Não posso deixar de externar meus sinceros agradecimentos aos meus ex-alunos, ex-orientandos, ex-professores e colegas de profissão (infelizmente alguns já não estão mais entre nós) e o respaldo da minha mulher, Ivana, e amigos, pois sem eles esta carreira não teria sido possível.”
O que leva um pesquisador a se tornar influente
A trajetória dos três docentes mostra que a influência científica não se resume a métricas ou índices de citação. Ela nasce da constância no trabalho, do espírito colaborativo e da capacidade de inspirar novas gerações. Em comum, todos demonstram que a ciência se fortalece quando é compartilhada, e que o verdadeiro impacto de uma pesquisa está tanto nas descobertas que gera quanto nas pessoas que forma.
Por: Isabel Pennafirme Ferreira