Alunos do IMECC se destacam no XXXIII Congresso de Iniciação Científica da UNICAMP

Realizado entre os dias 22 e 24 de outubro de 2025, no Centro de Convenções e no Ginásio Multidisciplinar da UNICAMP, o XXXIII Congresso de Iniciação Científica e Tecnológica reuniu estudantes de diferentes áreas do conhecimento para a apresentação dos resultados de pesquisas desenvolvidas ao longo do ano.

Durante o evento, que incluiu sessões de pôsteres, palestras de pesquisadores renomados e a exposição de centenas de trabalhos, o congresso reafirmou seu papel como um dos principais espaços de divulgação da Iniciação Científica e Tecnológica na Universidade. A iniciativa também promoveu a troca de experiências e a interação entre estudantes e pesquisadores de diferentes níveis de formação.

Com 58 trabalhos submetidos neste ano, o Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) manteve sua expressiva presença no Congresso. Dos quinze projetos selecionados pelo Comitê Interno do Prêmio PIBIC na área de Exatas, oito eram do Instituto, demonstrando a força e a diversidade da pesquisa realizada pelos seus alunos. O desempenho resultou ainda no reconhecimento de quatro estudantes, premiados pela qualidade e relevância de suas pesquisas com o Prêmio de Mérito Científico ou Menção Honrosa.

 

O fascínio e o desafio dos sistemas caóticos

Premiado na categoria Mérito Científico, Giovani Imperatrice, aluno da Licenciatura em Matemática, apresentou uma investigação sobre sistemas dinâmicos e caos, tema “bastante difundido no cenário popular por meio de filmes como ‘Efeito Borboleta’ ou aquelas imagens estonteantes de geometrias fractais coloridas”.

Giovani conta que seu interesse pela iniciação científica surgiu antes mesmo de saber como ingressar nesse universo. "Eu tinha muita vontade de fazer uma iniciação científica, mas não sabia se precisava enviar e-mails, bater na porta de algum professor ou somente esperar uma oportunidade", relembra. Foi conversando com um colega que já havia iniciado uma IC que ele percebeu que não haveria problema algum em procurar diretamente um professor com quem tivesse afinidade.

Ele recorda que chegou à primeira reunião com o orientador, José Regis Azevedo Varão Filho (IMECC), carregando "um PDF enorme, cheio de coisas que me interessavam e, ingenuamente, querendo conectar todas elas". Mas, ao longo das conversas preliminares, foi entendendo melhor o que seria um projeto de IC em matemática: algo factível para um aluno de graduação, mas que pudesse dar "um gostinho do que é fazer pesquisa em matemática". 

Com o avanço das reuniões, Giovani percebeu que seu entusiasmo por temas diversos precisava ser moldado para se transformar em um projeto viável. Desse processo nasceu um estudo sobre conceitos fundamentais de Sistemas Dinâmicos.

Para ilustrar a relevância do tema, ele cita um exemplo cotidiano: a previsão do tempo. “É possível calcular se vai chover amanhã, mas estender essa análise para períodos maiores se torna cada vez mais difícil à medida que o sistema se mostra imprevisível”, explica. Segundo ele, compreender os limites da modelagem e as propriedades qualitativas desses sistemas é crucial para o avanço científico.

Sobre o prêmio, Giovani afirma que o reconhecimento funcionou como uma validação inesperada. "Eu não estava nem me preocupando com a premiação, sinceramente. Apesar dos prazeres da pesquisa, eu estava morrendo de medo de não estar fazendo as coisas direito ou de estar esquecendo alguma coisa”, confessa. “Mas ser contemplado com o mérito científico foi um tipo de validação para mim: olha, aquele estudo que você fez, tão introspectivo e particular, agora significa algo para o mundo afora e está sendo reconhecido positivamente. No fim, eu fico muito feliz de poder compartilhar assuntos tão interessantes com as pessoas.”

Com bom humor, ele brinca que a conquista também lhe renderá um novo status nas conversas familiares: “Agora eu posso compartilhar na mesa de Natal da família que, além de ser o ‘doido’ estudando matemática, agora sou o doido estudando matemática com mérito científico. E isso é, sim, uma conquista importante.”

 

Matemática e a busca por ciclos minimizantes

Também premiado com o Mérito Científico, Murilo Felício Nascimento dos Santos, do Bacharelado em Matemática, apresentou um trabalho que articula diferentes perspectivas matemáticas.

Desenvolvida no âmbito do programa PICME/OBMEP, sua pesquisa aborda a determinação de ciclos que minimizam ou maximizam o custo médio em grafos orientados, problema com aplicações em diversas áreas. “Esse tipo de formulação matemática surge em diversos contextos, permitindo, por exemplo, que uma empresa calcule quais rotas numa malha de pontos de entrega minimizam o custo médio de transporte. Outro importante exemplo surge na Física, em que o ‘custo’ no grafo representa a energia de interação entre sítios numa cadeia atômica infinita, e buscamos determinar configurações que minimizem a energia média do sistema”, contextualiza.

Murilo conta que o projeto foi desenvolvido em duas etapas: inicialmente, dedicou-se ao estudo da teoria fundamental e, em seguida, escolheu um problema específico entre as possibilidades apresentadas pelos orientadores Eduardo Garibaldi (IMECC) e João Tiago Assunção Gomes (UFRB).

A principal contribuição do trabalho, segundo ele, está na integração entre teoria e aplicação. “Abordamos esse tema por diversos ângulos: do ponto de vista algébrico e algorítmico da teoria de grafos e da álgebra tropical; do ponto de vista dos sistemas dinâmicos via teoria de otimização ergódica; e do ponto de vista físico da mecânica estatística em temperatura zero. Nesse sentido, a riqueza do tema está tanto na elegante articulação de diferentes perspectivas matemáticas que se complementam quanto na sua aplicabilidade a um vasto conjunto de situações concretas.”

Para Murilo, o prêmio reforça a relevância da pesquisa em Matemática na UNICAMP e reconhece o esforço dedicado ao projeto. “Esse tipo de reconhecimento é uma contribuição valiosa ao meu processo de formação, pois abre portas para futuras oportunidades na pós-graduação e na pesquisa, além de reforçar a consistência da minha trajetória acadêmica, me impulsionando a assumir projetos cada vez mais ambiciosos”, afirma.

 

Otimização e redes neurais

Estudante de Matemática Aplicada e Computacional, Lorena Akari Fukuda Alvarez recebeu Menção Honrosa por um trabalho que combina teoria, programação e aplicações contemporâneas da inteligência artificial. 

Com o interesse cada vez mais voltado para a matemática aplicada, Lorena decidiu explorar as diferentes linhas de pesquisa do Instituto. “Entrei no site do IMECC e li sobre todas as áreas de pesquisa da matemática aplicada, e logo comecei a ir atrás dos professores das áreas que mais me interessaram. Conversei com muitos professores e fui muito bem recebida por todos”, relata. Após conversas e indicações, encontrou na otimização o campo que mais a atraiu.

O projeto foi definido com o orientador Paulo José da Silva e Silva (IMECC). Considerando o estágio de formação da aluna à época, optaram por um problema que fosse ao mesmo tempo instigante e viável: o estudo dos métodos de descida do gradiente estocástico no treinamento de redes neurais. “Achei esse tema super interessante, principalmente pela sua relevância atual e porque era uma iniciação científica com muitos aspectos práticos além da teoria. Nós implementamos todos os métodos estudados com a linguagem de programação Julia, que é algo que me atrai em uma pesquisa”, destaca a estudante.

Lorena explica que o aprendizado profundo só se tornou viável graças ao desenvolvimento de técnicas de otimização capazes de lidar com problemas não lineares de grande porte. Em vez de utilizar todos os dados de treinamento para calcular a direção do passo por iteração do algoritmo, esses métodos trabalham com amostras aleatórias, simplificando o cálculo do gradiente e reduzindo o custo computacional.

Entre as abordagens estudadas estão métodos amplamente utilizados, como SGD (Stochastic Gradient Descent), Momento, RMSprop, Adam e uma variante mais recente chamada MoMo.

Para a jovem pesquisadora, o reconhecimento recebido tem um significado especial. "Ainda não é tão comum ver uma pessoa como eu recebendo reconhecimento acadêmico no 'alto escalão' das exatas, que é uma área predominantemente masculina", reflete. "Receber um reconhecimento em uma premiação menor, ainda em nível de graduação, me faz acreditar que é possível atingir relevância futuramente na academia." 

 

Modelos híbridos na previsão de risco financeiro

A segunda Menção Honrosa do IMECC foi concedida a Vinicius Rezende Bardelin, estudante de Estatística, cujo trabalho investigou métodos de previsão de medidas de risco de mercado, como VaR e ES, amplamente utilizadas por bancos e instituições financeiras.

O estudo comparou abordagens tradicionais, baseadas em modelos de séries temporais de volatilidade, com metodologias mais modernas e híbridas. “Trabalhamos com as duas medidas de risco mais utilizadas por instituições financeiras quando se fala em risco de mercado e avaliamos o desempenho dos diferentes modelos. Os resultados mostraram que a metodologia proposta, que combina modelos tradicionais com redes neurais, teve desempenho superior em dois dos três cenários de risco analisados”, explica Vinicius.

Questionado sobre como foi o momento inicial de sua Iniciação Científica, Vinícius conta como foi a busca por seu orientador, Carlos Cesar Trucíos Maza (IMECC): "Eu procurei o professor Trucíos por conta própria. Ele foi convidado para a Semana da Estatística de 2023 e eu gostei muito da apresentação dele. Como eu já tinha vontade de fazer Iniciação Científica e não sabia exatamente com quem, logo pensei que ele poderia ser um ótimo orientador. Na nossa primeira conversa sobre isso, ele aceitou a ideia e começamos a estudar alguns tópicos, ainda sem um projeto completamente definido."

Ele relembra que o tema da pesquisa foi construído de maneira gradual e conjunta. "No começo, eu só sabia que queria trabalhar com redes neurais e que ele [o professor] atuava com temas de finanças, então ainda não tínhamos um escopo bem fechado. Conforme fomos conversando e estudando, decidimos seguir pela linha de combinar modelos de séries temporais com redes neurais para prever medidas de risco de mercado. Então o problema de pesquisa foi sendo construído ao longo dos primeiros meses da IC (mesmo antes de aplicarmos para o PIBIC), de forma bastante conjunta."

Receber a Menção Honrosa no Congresso foi um marco para o estudante. Vinicius classifica a Iniciação Científica como a atividade que mais gostou de realizar durante sua graduação. "Receber essa menção honrosa foi muito especial. Fiquei bastante feliz com o reconhecimento e ainda mais motivado a continuar fazendo pesquisa", celebra.

 

Conselhos de quem trilhou o caminho

Aos estudantes que consideram seguir a carreira acadêmica, os quatro jovens pesquisadores compartilham conselhos valiosos, baseados em suas próprias trajetórias.

Vinicius é direto: “Faça iniciação científica. Independente de ter bolsa ou do momento da graduação, essa é uma experiência muito rica que ajuda bastante a entender se você realmente gosta da rotina de pesquisa.” Ele destaca que os aprendizados da IC vão muito além do tema específico do projeto. A iniciação científica é, segundo ele, uma oportunidade de estudar assuntos mais avançados e, principalmente, de aprender a aprender. “Na minha visão, essa é uma das habilidades mais importantes, tanto para quem quer seguir na carreira acadêmica quanto para quem pretende atuar no mercado de trabalho.”

Lorena ressalta a importância de manter a autenticidade no percurso. “Tente ao máximo seguir o que faz sentido para você e não se prender tanto ao que outras pessoas do curso falam. O importante é não desanimar.”

Murilo ressalta o valor das habilidades desenvolvidas para além do conteúdo técnico: “Aproveite oportunidades de participar de eventos acadêmicos, como congressos e colóquios, para desenvolver a capacidade de elaborar e expor seus projetos, além de responder perguntas de colegas e pesquisadores.” Para ele, essas competências são integrais àqueles que desejam uma carreira acadêmica e melhoram consideravelmente com a prática. “É natural sentir inseguranças, mas é justamente encarando tais atividades que podemos identificar onde melhorar e, assim, crescemos como pesquisadores.”

Já Giovani, oferece uma perspectiva mais realista sobre o que significa fazer iniciação científica, especialmente na área de Matemática: “Ela serve para você conhecer as áreas de pesquisa do instituto e entender se elas realmente te interessam ou não. Não é, necessariamente, sobre fazer grandes descobertas, mas sobre aprender quais perguntas são relevantes em um contexto.”

Ao fim, ele compartilha um conselho marcante que recebeu de seu orientador em um momento de insegurança, quando se sentia frustrado por esquecer conteúdos já estudados e por se comparar com outros colegas. Na ocasião, o orientador o tranquilizou ao explicar que “não é que as pessoas se lembrem de tudo; quase ninguém é assim. O que acontece é que elas estão constantemente revisitando aqueles conceitos, e isso faz com que o conhecimento permaneça fresco na mente.”

Para Giovani, essa reflexão sintetiza, de forma simples e profunda, o que significa construir uma carreira acadêmica.

 

 

Autor(a): Isabel Pennafirme Ferreira | Fotos: Arquivo pessoal